Fichamento do livro "Lições de Arquitetura" de Hertzberger
A- Domínio Público:
- A percepção de um espaço como público ou privado varia de acordo com o seu grau de acesso. Normalmente, esse acesso é definido por convenções sociais compartilhadas, embora, em alguns casos, também possa ser regulamentado por legislação.
- Os materiais utilizados em um projeto contribuem para comunicar o grau de acesso esperado/desejado para cada ambiente. Exemplo: portas de vidro transparente entre dois espaços públicos reforçam a ideia de continuidade e livre acesso. Em contrapartida, o uso de vidro opaco ou semitransparente sugere maior restrição e delimita de forma mais clara os dois espaços.
- A organização e o planejamento de um espaço podem tanto estimular quanto restringir sua adaptação e personalização pelos usuários. Nesse sentido, é possível projetar ambientes que favoreçam a apropriação, incentivando quem ocupa a desenvolver um maior senso de responsabilidade e, consequentemente, um envolvimento maior na configuração e no uso do espaço.
- Alguns ambientes possuem um caráter tão público que acabam inibindo a expressão da individualidade dos indivíduos, dificultando que eles incorporem seus gostos e sua personalidade ao espaço. Isso pode ser negativo, pois tende a reduzir o sentimento de pertencimento e a conexão das pessoas com o ambiente que ocupam.
- Citação: "Um "ninho seguro" - um espaço conhecido à nossa volta, onde sabemos que nossas coisas estão seguras e onde podemos nos concentrar sem sermos perturbados pelos outros - é algo de que cada indivíduo precisa tanto quanto o grupo. Sem isso, não pode haver colaboração com os outros. Se você não tem um lugar que possa chamar seu, você não sabe onde está! Não pode haver aventura sem uma base para onde retornar: todo mundo precisa de alguma espécie de ninho para pousar."
- Os intervalos são espaços de transição entre o público e o privado, que podem ser acessados por ambos simultaneamente. Além disso, são uma possível solução para a demarcação rígida entre essas esferas. Exemplos: soleiras e alpendres.
- É importante conferir aos espaços públicos uma configuração que incentive o senso de responsabilidade coletiva, ao mesmo tempo que permita que cada indivíduo se sinta confortável para contribuir para tornar os ambientes mais confortáveis e agradáveis da sua maneira.
- As obras públicas, por “virem de cima”, são frequentemente percebidas por aqueles que buscam beneficiar como impositórias e opressoras. Isso ocorre porque muitos não se sentem participantes do processo de elaboração desses espaços, o que pode gerar um sentimento de alienação em relação ao ambiente criado.
- Os constantes e crescentes casos de depredação do espaço público são sintomas desse sentimento de não pertencimento dos cidadãos.
- A rua não é mais vista como um espaço de convivência, mas sim de insegurança. Essa percepção está associada ao predomínio do tráfego motorizado, a disposição dos blocos edificados, a diminuição da densidade populacional e ao crescimento do individualismo.
- É papel do arquiteto, por meios arquitetônicos, buscar solucionar esse problema e tornar a rua um espaço mais convidativo que desperte nos cidadãos a vontade de ocupá-la.
- Citação: "Se as casas são domínios privados, a rua é o domínio público.", Herman Hetzberger
- Cabe ao arquiteto facilitar o acesso do público ao ambiente privado por meio de estratégias como galerias e múltiplas entradas.
- A fronteira entre o entre público e privado deve ser pouco explícita, favorecendo a combinação dessas esferas e permitindo uma transição fluida entre elas. Elementos como pilotis, escadas voltadas para a rua, edifícios públicos com atmosfera mais informal, além da combinação de materiais e iluminação, contribuem para tornar esse acesso mais convidativo.
B- Criando Espaço, Deixando Espaço:
- A forma e o uso se determinam mutuamente. Ao mesmo tempo a forma influencia o uso e a experiência, o uso também deve ser considerado na sua elaboração. Quando algo é projetado para todos, é fundamental considerar como pode ser interpretado por diferentes indivíduos, bem como as possíveis variações dessas interpretações ao longo do tempo.
- Os arquitetos não podem criar livremente, mas podem encontrar inúmeras maneiras de transformar o espaço, mesmo diante das limitações impostas pelo ambiente.
- Regras fixas não são necessariamente restritivas e podem, inclusive, auxiliar aqueles que souberem como projetar.
- Os projetos devem incentivar interpretações diversas. O princípio estruturador (urdidura) deve ampliar as possibilidades de uso, enquanto as estruturas precisam ser capazes de absorver transformações ao longo do tempo. Nesse processo, os moradores devem ter voz ativa, participando da construção e adaptação do espaço.
- Grelha: uma forma de ordenamento urbano que possibilita a divisão do território e o acesso a lotes em larga escala. Ao contrário do que pode parecer, a grelha não resulta necessariamente em monotonia, pois apresenta flexibilidade, mesmo ao estabelecer regras gerais de organização.
- Citação: "A única abordagem construtiva para uma situação que está sujeita à mudança é uma forma que parta da própria mudança como fator permanente - isto é, como um dado essencialmente estático: uma forma que seja polivalente. Em outras palavras, uma forma que se preste a diversos usos sem que ela própria tenha que sofrer mudanças...", Herman Hetzberger
- O projeto deve oferecer estímulos que despertem associações no usuário, incentivando seu uso individual e, consequentemente, uma diversidade de interpretações e o surgimento de novas funções, de acordo com necessidades e situações específicas.
C- Forma Convidativa:
- A arquitetura parte do interesse pelos múltiplos cotidianos e, inevitavelmente, possui implicações sociais.
- A arquitetura deve ser bela, útil, universal, confortável e estimulante.
- Ao desenvolver um projeto, o arquiteto precisa considerar a capacidade da forma de desempenhar diversos papéis, uma vez que diferentes pessoas utilizam o ambiente de maneiras variadas, muitas vezes além daquelas inicialmente previstas.
- A extrema funcionalidade, em contra partida, gera rigidez e inflexibilidade, o que é negativo para um projeto.
- Para que um ambiente convide ao uso, é fundamental que o arquiteto seja empático, antecipando os desejos e necessidades dos usuários
- As dimensões exercem forte influência sobre a forma como o espaço será apropriado. Quanto maior forem, mais difícil tende a ser o máximo aproveitamento do ambiente.
- O que quer que seja feito deve ser pequeno o suficiente para ser usado e grande o suficiente para que ofereça o seu maior potencial
- Qualquer usuário de um espaço deve poder escolher quando deseja ser visto e quando prefere se resguardar. As diferenças de níveis consistem em uma estratégia que possibilita diversos graus de visibilidade e reclusão.
- Citação: "O projeto definitivo, deve estar harmonizado com todos os dados intelectuais e emocionais que o arquiteto possa imaginar, e deve se relacionar com todas as percepções sensoriais do espaço.", Herman Hetzberger
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